Emílio, Rubens e Flexa
Ele começou como qualquer outro desenhista: na infância.
Mais um daqueles casos em que as mudanças que acompanham o crescimento, a descoberta de novos interesses e a vivência de novas experiências não consegue apagar uma velha paixão.
Dedicação e vontade, misturados com um pouco de sorte, levaram Rubens Bernardino da Silva de uma incansável luta para encontrar seu lugar ao sol para o único lugar onde ele sempre quis estar: No mercado de Quadrinhos.
Rubens é ex-aluno do Curso de Quadrinhos da Escola Oficina de Santos e nos contou, passo-a-passo, como tudo aconteceu:
Como você começou a desenhar?
Como todo mundo que acaba seguindo essa área. Desenho desde pequeno, e nunca parei.
Consegue se lembrar de uma época em que você não desenhava?
Não, cara. Na verdade não. (risos)
Mas qual foi o primeiro desenho que você lembra de ter feito?
Não sei dizer, mas o primeiro que eu olhei e achei legal de verdade, foi um Shyriu, dos Cavaleiros do Zodíaco. eu tinha uns 12 anos.
Quer dizer que você começou desenhando mangá?
Pois é, durante muito tempo minha influência maior era mangá. Só comecei a prestar mais atenção em quadrinhos americanos, de super-heróis, quando já estava fazendo o curso na Escola Oficina.
Mas você é reconhecidamente um fã do Superman.
(Risos) Isso começou com as brincadeiras que o Luiz, um colega do curso, fazia. Eu acabei pegando gosto pelo personagem, mas meu super-herói preferido é o Lanterna Verde. Sempre foi. O Luiz até hoje me chama de Clark.
Mas vamos seguir a seqüência da história. Mangá era seu caminho. Alguma influência forte no seu traço?
Akira Toriyama. Eu desenhava tudo de Dragon Ball. Se alguém pedisse um desenho de qualquer personagem, por mais sem importância que fosse, eu sentava e fazia. Eu passei quase 1 ano e meio desenhando só Dragon Ball. Eu até criava personagens encima dos personagens dele. Mas não era só de Animê que eu tirava influência. Os Super Sentai da época também eram demais. Lembro muito do CyberCop.
Alguma dessas suas criações vingou?
Não! (risos) Eram coisa de criança. Nada demais.
Você sempre acreditou que poderia ser um desenhista profissional? Que poderia viver disso?
Então, eu sempre quis isso, mas era difícil de acreditar. Me lembro de estar na 5ª série, e conversando com a Gabi (Rubens e Gabi namoram até hoje) sobre o que queríamos ser quando crescer, e eu sempre quis desenhar. Mas todo mundo sempre dizia que isso não dava futuro pra ninguém, que não dava certo…. aí é difícil.
E foi isso que te levou a fazer tantas coisas diferentes?
Foi. Teve uma época em que eu fiz um milhão e meio de cursos, tentando encontrar uma profissão que fosse me dar futuro, dentro das coisas que eu gostava de fazer. Fiz muitos, alguns profissionalizantes, como o de Técnicas de Escritório, Encadernação e Restauração de Livros, até de Mecânica! Eu estava atirando para todos os lados.
E como você chegou na Escola Oficina?
Eu sabia o que eu queria. E fui correr atrás. Enquanto fazia esses montes de cursos, continuava desenhando, e até tirava uma grana vendendo CHIBI (No contexto de animes ou mangá, chibi é utilizado para descrever um modo de traço de desenho de personagem em modo bastante estilizado, com cabeças no mesmo tamanho dos corpos, geralmente para obter um efeito cômico ou mais sentimental)que eu desenhava, as vezes por vontade própria, as vezes por encomenda.
Então fiz uma pesquisa de cursos e a Escola Oficina era a melhor opção. Na época existiam 3 cursos de quadrinhos em Santos, e hoje um deles nem existe mais. A Escola Oficina oferecia duas coisas que eram importantes pra mim: estrutura, já que é uma escola grande, com mais 2 outras unidades fora de Santos, e o certificado. Além disso, uma amiga falou muito bem da escola; ela já tinha feito um curso na Escola e conhecia bem o esquema.
E quando você começou o curso, ainda desenhava mangá.
Isso. Mas não por muito tempo. Quando comecei o curso, comecei a pegar outras influências. Meu traço estava mudando. Conforme eu fui pegando as técnicas, a parte teórica, eu fui conhecendo mais dos quadrinhos americanos e me identifiquei com o traço de alguns desenhistas que mesclavam as características do mangá com as dos super heróis. Primeiro foi o Emílio, que era meu professor no início do curso, que foi me mostrando alguns trabalhos, algumas saídas interessantes. Depois, o Flexa assumiu a turma quando o Emílio se afastou com um problema de saúde, e ele continuou me apresentando a arte de outros caras, como Humberto Ramos e Ed Mcguinness.
Aliás, você passou uma época experimentando muito com seu traço
Foi. Eu estava decidido a encontrar o traço que me desse oportunidade de trabalhar logo. Fui experimentando um pouco de tudo. E nessa época, até as mudanças que iam acontecendo na minha vida pessoal começaram a influenciar meu traço.
Aí você conheceu a arte do Ivan Reis.
(Risos) Foi. O Emílio reassumiu a turma e começou a movimentar uma vinda do Ivan à Santos pra fazer uma palestra para os alunos. Eu tinha ouvido falar dele, mas não conhecia muito do seu trabalho. Fui pesquisar e gostei muito do que eu vi. Mas foi quando ele esteve na Escola, e trouxe originais e fez vários sketches alí, na hora, que realmente me pegou.
Rubens e Ivan Reis, em Palestra na Escola Oficina de Santos
Mas nessa época, você já estava fazendo alguns trabalhos com desenhos.
Já. Não era quadrinhos, mas era desenho. Tenho o traço muito limpo, então fiz vários desenhos pra tatuagens. Principalmente femininas. Isso foi em 2007.
Mas ainda não era isso o que você queria.
Não. Eu queria fazer quadrinhos. Então pensei em divulgar algumas coisas que eu fazia. Na época, o mais fácil era colocar alguns desenhos em Fotologs na internet. A melhor opção seria um site, mas… Só que eu achava que os Fotologs não me davam o dinamismo que eu queria. Pouca gente entrava e quase ninguém comentava. Então sai procurando uma outra forma de divulgar meu trabalho e acabei encontrando o Deviant Art.
E qual era a diferença?
O Deviant Art é um site específico para artistas. Reune profissionais e amadores, mas são pessoas que tem esse interesse específico. Aí comecei a ter muito mais feedback. Principalmente dos estrangeiros.
E foi no Deviant Art que você encontrou a sua primeira oportunidade real no mercado.
Foi. Recebi uma mensagem do Daniel Karkunen, um editor Sueco, que estava produzindo uma HQ educacional, que falava sobre quadrinhos. Ele viu meus trabalhos e, mesmo com a edição fechada, me pediu 2 páginas extras, para acrescentar no material dele. Nunca vi o material pronto, mas foi meu primeiro trabalho profissional na área. E foi meu primeiro trabalho pago em dólar! (risos)
E qual foi o próximo passo?
Aí eu me empolguei. Comecei a produzir muito material de teste, fui fuçando os sites das editoras, dos estúdios…. adicionando contatos nas listas de MSN, Orkut.
Comecei reproduzindo algumas páginas do Ivan (Reis) e depois comecei a criar algumas próprias. O difícil era conseguir entender a linguagem. Meu inglês não é bom, e os roteiros-teste tem muita referência específica da área que eu não conhecia. Então resolvi fazer umas páginas dos Vingadores, empolgado com o material do Ig Guará Barros, que além de ser o desenhista dos Vingadores, também é amigo meu.
Muitos desses testes você nunca chegou a encaminhar pra ninguém.
Eu sou muito exigente. Se eu não gosto, prefiro não mandar. Ainda mais pra teste, que é uma avaliação do seu melhor. Não queria me queimar com um trabalho ruim.
Página teste - Vingadores
Mas essas páginas dos Vingadores deram resultado
Cara, eu nunca imaginei que fosse ser assim. Eu tinha adicionado muitos contatos de estúdios no MSN. Um deles era a Sequential Studios International que, na época, estava fazendo seleção de artistas, alguns coloristas, arte-finalistas, e eles tinham umavaga de desenhista. Um dia, eu estava usando um avatar do Asa Noturna no MSN, um desses contatos mandou uma mensagem perguntando se era um desenho meu. Eu disse que não e ele pediu pra ver alguma coisa minha. Mandei as páginas dos Vingadores, o link do Deviant Arte, e tomei o maior susto! O cara disse que se eu quisesse, ele mandava o contrato pra mim, que eu nem precisava fazer os teste! Eu estranhei, mas disse que estava tudo certo. Que ele podia mandar o contrato e quis saber o que ele era dentro do estúdio. Ele disse “Eu sou o dono.” Eu não podia acreditar!
E você fechou o contrato?
Claro! (risos). Meu contrato é de exclusividade por 5 anos. Tem muitos detalhes, mas nos próximos 5 anos, é a Sequential Studios International que vai me arrumar trabalho.
E hoje você já está produzindo?
Sim. Não demorou muito. Eu comecei a produzir umas páginas de teste pra que o meu agente tivesse material adequado para apresentar nas editoras, e é incrível quantas editoras pequenas de HQ existem por aí. E logo ele me conseguiu uma mini-série para a Studio 407, de Santa Monica.
E como funciona o trabalho com o estúdio e a agenciadora?
O agente traduz o roteiro original (é parte do trabalho dele, não importa se o desenhista sabe inglês ou não) e me passa o roteiro traduzido. Eu desenho os layouts das páginas, que não são muito detalhados. Servem apenas para se ter uma noção geral da página e da distribuição dos quadros. O agente passa os layouts pro estúdio e eles aprovam ou pedem alterações. Quando tudo estiver aprovado, eu começo a produzir as páginas.
E como ficam os prazos?
Eu tenho mais ou menos 45 dias para produzir uma edição de 26 páginas. Nas editoras grandes esse tempo é muito mais curto. Por isso é bom começar em editoras pequenas, para ir pegando o ritmo.
Depois que você entrega as páginas…
Elas vão pras mãos do colorista. Eu tento sempre conseguir o contato deles, pra poder explicar algumas coisas, passar algumas impressões minhas.
E sobre o que trata essa mini-série?
Não posso falar muito. O sigilo é muito grande nesse projeto. Só posso adiantar que é uma HQ de Ficção Científica, chamada Netherworld.
Sci-Fi? Não é super-heróis?
(risos) Não. E está sendo bem diferente trabalhar com isso. Mas sinto falta de desenhar super-heróis.
Temos uma data de lançamento para Netherworld?
Ainda não. Mas assim que eu souber, eu aviso vocês.
Se você pudesse escolher agora, com qual personagem você gostaria de estar trabalhando?
Superman! Sempre gostei mais da DC. Mas seria bem legal fazer o Quarteto Fantástico também.
Cores - Diogo - Nascimento
Agora que você faz parte desse mundo, como você vê o mercado de quadrinhos no Brasil?
É muito fraco. Os brasileiros estão produzindo muita HQ, e são todos grandes profissionais. Mas tudo feito pra fora. No Brasil, ou é Maurício de Souza ou já era. A sorte é que o mercado estrangeiro está de olho nos brasileiros! (risos)
Qual o recado que você deixa para os alunos da Escola Oficina e todos os que querem seguir nessa profissão?
Desenhem muito. Todo dia. Quanto mais você faz, mais você aprende e melhor você fica. Corram atrás e treinem muito.
…
Se você quer conhecer mais do trabalho do Rubens, você pode acessar seu portfolio aqui .